terça-feira, 7 de abril de 2009

Xadrez de Napoleão



Na última Quarta-feira tivemos na SER a visita do amigo Rui Marques, um Alekhinista.
Trouxe consigo o registo de um conjunto de partidas de cariz táctico combinatório, que analisamos, das quais destaco a interessante partida G. Rotlevivs - A. Rubinstein, 1907 (que em breve terá a análise publicada em http://viriatovitchchess.blogspot.com/)

Nessa perspectiva apresento a primeira parte de uma partida jogada entre um brilhante estratega, o Imperador Napoleão Bonaparte e o seu ajudante de campo, o General Bertrand. Esta partida foi disputada em 1818, quando ambos já se encontravam deportados na ilha de Sta Helena (no Atlântico sul, a meio caminho entre Angola e o Brasil).

Imperador Napoleão I - General Bertrand, Sta Helena, 1818.
Abertura Escocesa
1. Nf3, Nc6 2. e4, e5 3. d4, Nxd4? (3. ...,exd4 teria sido a resposta natural)

4. Nxd4, exd4 5. Bc4? (melhor teria sido 5. Qxd4), Bc5? (5. ..., Bb4+ mais interessante)

6. c3? (Bxf7+!), Qe7 7. O-O, Qe5

8.f4? (pareceu comprometer o jogo, o rei ficou exposto), dxc3+

9. Kh1, cxb2 10. Bxf7+? (fxe5!)

10. ..., Kd8! 11. fxe5, bxa1=Q 12. Bxg8, Be7! 13. Qb3, a5??



A jogada perdulária do General é castigada pelo Imperador com uma bonita combinação táctica de mate em 5, a qual envolve o desvio do bispo em e7, e a atracção do Rei para essa mesma casa. Descobre tu a combinação!!


Esta semana, o núcleo de xadrez na Quarta-feira à noite, também promete surpresas.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Xadrez Medieval- Jogo dos Reis


Os Árabes trouxeram consigo para a Península Ibérica um alforge cultural que incluía o shatranj. Este jogo difunde-se por toda a Europa durante o século XI.

O "ajadrez" (designação Castelhana) vai difundindo e alterando as suas características originais, por forma a acomodar as características culturais e históricas da Europa, e em alguns casos, as particularidades regionais.

O Rei substituiu o tradicional Rajá. O elefante que ainda hoje mantém essa designação na língua castelhana (Al-fil), é das peças que vai ter designações mais variadas: em França é o Fou (o bôbo da corte); na Alemanha é o Laufer (o correio); em inglês Bishop (o bispo), etc. O Ferz, representando uma espécie de ministro, foi o primeiro substituto europeu do Mantri, o qual só tinha direito de se mover uma casa na diagonal. Algumas fontes indicam que só no sec. XIII o Ferz é substituído pela Rainha, a peça de maior mobilidade sobre o tabuleiro, ficando então no comando de cada grupo de peças o casal real - Jogo dos Reis.

Estas e outras pequenas alterações modificam o propósito guerreiro original do jogo de representação do exército indiano, por uma réplica em miniatura da sociedade Medieval: a nobreza, clero, cavaleiro e restantes actores sociais das classes inferiores.

O jogo de xadrez passa a ser muito praticado dentro das classes aristocráticas de cada país, sendo aliás considerada uma das 7 áreas fundamentais da formação de cavaleiros e cortesãos.

As mulheres eram também praticantes muito competentes, capazes de igualar o nível de jogo dos homens. Concorria para isso o incitamento à prática de xadrez entre os cavalheiros e as damas da corte. Aos cavalheiros era permitido deslocarem-se aos aposentos privados das damas, unicamente, com o pretexto de jogar xadrez. Alguns episódios interessantes desta prerrogativa especial são assinalados na nossa história.

Num dia incerto, entre 1211 e 1223, D. Martins Sanches, filho de D. Sancho I, é surpreendido jogando xadrez nos aposentos da sua amante, D. Mécia Lopes, por outro cavalheiro da corte que se tinha enamorado por aquela.


No Mosteiro da Batalha pode ver-se na rosácea facial do topo do túmulo de D. Pedro I, ou Roda da Vida e da Fortuna, a representação de D. Pedro e D. Inês a jogar uma partida de xadrez. Esta obra deve ter sido terminada até 1367 e pensa-se que tenha sido encomendada, em vida, pelo próprio Rei.

Na época medieval, parece poder traçar-se uma relação íntima entre amor e xadrez, como ilustrado nos episódios acima, mas também em diversa literatura da época.

A Igreja teve posições relativamente ao jogo de xadrez que foram variando no espaço temporal. Numa fase inicial, durante o século XI, a hierarquia eclesial proibiu a prática de xadrez entre os frades, assente numa perspectiva que o mesmo era uma criação dos árabes, por isso não-cristãos, além de que estaria associado a apostas, o que o tornava duplamente proscrito. Um ou dois séculos depois, o xadrez foi usado com finalidades morais para ilustrar a importância de cada elemento da sociedade cumprir da melhor forma o seu papel, para se atingir o objecto de maior bem colectivo.

Em suma, a fase medieval do xadrez é um período de difusão e experimentação ao nível do movimento e designação das peças, nomeadamente entre as classes sociais mais cultas da sociedade europeia. Admite-se que nesse período o xadrez já fosse conhecido por todo o espaço África-Ásia-Europa, embora talvez apresentando propriedades diversas de região para região.



Bibliografia

[1] Xadrez, Luiz Loureiro,Atlas do Esporteno Brasil, Rio de Janeiro, Confef, 10.8-10.24, 2006.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Férias da Páscoa: Xadrez à Quarta à Noite_ Sábado após as 15h


Na Sociedade de Educação e Recreio durante as férias da Páscoa o núcleo de xadrez estará em funcionamento na Quarta após as 9h00 e Sábado após as 15h00.
Nas noite de Quarta-feira serão privilegiado análise de jogos, e no Sábado a formação.

O núcleo não estará aberto no dia Sábado 11 de Abril.
APARECE és bem-vindo.

domingo, 22 de março de 2009

Como o xadrez chegou à Europa


A Rota da Seda percorrida por um afã buliçoso de comerciantes, aventureiros e guerreiros terá sido o meio pelo qual o jogo shaturanga (ver post "Génese do Xadrez") chegou à Pérsia, onde passou a ser designado por chatrang. (Os diversos caminhos usados na Rota da Seda são apresentados no mapa abaixo)


Na Pérsia existia uma sociedade próspera, em que o jogo chatrang teria sido muito praticado e disso existe referências nos textos escritos pelo poeta Firdusi durante a governação de Khusrau Nushirwan (531-578 d.C.). Acredita-se que o chatrang seria já uma versão modificada, apenas para dois jogadores.

Na região vizinha da Arábia, Medina, surge por volta do ano 622, uma nova religião - o Islão, que rapidamente vai adquirir características politicas e administrativas.

Estimulados pela nova fé, os muçulmanos muito rapidamente modificam toda a geografia política, há muito estabelecida desde o mundo asiático até ao Mediterrâneo. (Ver mapa abaixo)


A expansão do Islão, criou como nunca até ali, uma vasta comunidade em paz protegida pelas armas árabes, na qual a mistura entre povos e o comércio desde a China até a Península Ibérica floresceu. Criou-se assim uma sociedade brilhante, na qual a actividade intelectual desempenhava um papel central. A procura do saber dos Árabes era tão insaciável como a vontade de expansão e muito rapidamente foi alargada à história, à literatura, à medicina, à matemática, à geografia e ao direito. Muitos destes conhecimentos eram absorvidos a partir da cultura dos povos conquistados, que por essa via se reviam eles próprios no Islão.

Neste quadro o chatrang foi absorvido pela sociedade Árabe e passou a ter o nome de shatranj mantendo as peças características semelhantes, às pré-existentes na Pérsia. Sobre esse assunto, ver a mensagem "Um dos mais antigos puzzles de Xadrez", postada a 05/o2/2009 por RG.

Na tabela seguinte poderá ter-se uma indicação da evolução do nome e o carácter das peças de xadrez desde a Índia até aos países da Europa:

Sânscrito Persa Árabe Latim Espanhol Português Inglês
Raja Shah Malik Rex Rey Rei King
Mantri Vazir Wazir Regina Reina Rainha Queen
Gajah Pil Al-Phil Episcopus Alfil Bispo Bishop
Ashava Asp Fars Miles Caballo Cavalo Knight
Ratha Rokh Qalaah Rochus Torre Torre Rook
Padati Piadeh Baidaq Pedes Peón Peão Pawn

O xadrez chega a Espanha, a Portugal e ao sul da Itália à boleia da expansão do Islão, muito provavelmente antes do final do primeiro milénio da era Cristã.

Para a difusão do xadrez aos restantes países da Europa, muito contribuiu o regresso dos homens envolvidos na Guerra Santa na Palestina - os Cruzados.


Referências
[1] Mundo Islâmico, Esplendor de uma Fé, F. Robinson, Círculos de Leitores, 1992.
[2] http://en.wikipedia.org/wiki/History_of_chess

terça-feira, 10 de março de 2009

Torneio Paralelo de Semi-Rápidas - Vila Nova de Caparica



I Torneio Paralelo de Semi-Rápidas

25 de Abril de 2009

Escola EB1-JI Vila Nova de Caparica, Almada



Regulamento

1- A Associação de Pais da EB1/JI de Vila Nova de Caparica e a Sociedade de Educação e Recreio são as entidades organizadoras do “I Torneio Paralelo de Semi-Rápidas”, constituído de duas competições em paralelo, ambas com partidas semi-rápidas de 15 minutos, série A – Jovens do 1ºCiclo, até sub-12, série B – Familiares e amigos dos jogadores da série A.



2- O Torneio tem o apoio da Câmara Municipal de Almada (CMA) e da Junta de Freguesia de Caparica e o patrocínio da empresa “Lugar ao Sol”.



3- O torneio será efectuado em Sistema Suíço de cinco sessões, e decorrerá no dia 25 de Abril de 2009 na EB1/JI, na rua Pedro Álvares Cabral, Vila Nova de Caparica (coordenadas: N 38° 64’ 49.39”; W 9° 20’ 53.63”), com o seguinte horário:

1ª Sessão: 15.30

2ª Sessão: 16.05

3ª Sessão: 16.45

4ª Sessão: 17.20

5ª Sessão: 18.00

Entrega de prémios e encerramento: 18h45



4- Prémios de participação a todos os jogadores. Os prémios dos primeiros três classificados

série A: Taças

série B: Talonários “Lugar ao Sol”

Cada Talonário dá acesso a alojamento gratuito de 1 noite, para 2 pessoas, em qualquer das 255 unidades hoteleiras aderentes (sujeito a consumo mínimo http://www.lugaraosol.pt).



5- O Torneio é aberto à participação de todos os interessados que nele se inscrevam.

A inscrição é gratuita.

A inscrição deverá ser feita para:

e-mail: ser.xadrez@gmail.com (até ao dia 24 de Abril)

TM: 960226418 (António Dias) até às 15h00 do dia 25 de Abril de 2009.



6- A Direcção do Torneio estará a cargo de António Dias e a Arbitragem será do Mestre João Leonardo (CMA).



7- Serão eliminados os jogadores que acumulem duas faltas de comparência.



8- Serão utilizados os critérios de desempate previstos no Regulamento de Competições da FPX.



9- Em tudo o que não se encontra especificamente previsto neste Regulamento, serão aplicadas as disposições que se encontram estipuladas no Regulamento de Competições da FPX. Eventuais casos omissos serão decididos pela Direcção da prova, dos quais não haverá apelo.

terça-feira, 3 de março de 2009

Génese do Xadrez


Quando se observa serenamente as peças sobre o tabuleiro de xadrez surgem naturalmente algumas questões: quem, como e onde terá sido inventado este apaixonante jogo?

Estas questões não têm, hoje em dia, uma resposta sem controvérsia. As principais correntes de opinião nomeiam a China, a Índia ou a Pérsia, como as regiões de origens do jogo (ver referências no final do texto).

(crédito a http://history.chess.free.fr/enigma.htm)

O jogo de tabuleiro designado por Go ou xadrez chinês, que vários autores consideram ter aparecido várias centenas ou mesmo milhares de anos antes da era Cristã, seria o mais antigo predecessor do jogo. No entanto, não tem sido possível, até aos dias de hoje, a recolha de registos escritos ou outras peças arqueológicas suficientemente verosímeis e incontestáveis para sustentar esta corrente de opinião.


(crédito a http://www.stmoroky.com/games/chess/chess.htm)

O extenso livro “A History of Chess”, de Harold Murray publicado em 1913 sustenta a corrente de opinião, com mais simpatizantes actualmente, que indica a Índia como a região de origem do jogo de Xadrez. No séc. VI d.C. terá surgido nessa região um jogo de tabuleiro de 64 células designado por Shaturanga, um termo sânscrito que significa dividido em quatro partes. O Shaturanga, era jogado por quatro jogadores, cada um dos quais conduzindo um conjunto de 8 peças representativas do exército Indiano: um Elefante, um Cavalo, um Barco (ou um Carro representado as lutas marítimas ou fluviais e em terra) e quatro Infantes todos comandados por um Rei (Rajá). As peças seriam dispostas no tabuleiro como apresentado na figura acima, e os jogadores situados nos cantos do tabuleiro, na sua vez de jogar poderiam ter que usar um dado para sortear a peça do seu exército que poderia ser jogada (ver referências).

Todavia, os primeiros registos escritos e peças de Shaturanga foram localizados na Pérsia (Irão), daí a terceira corrente de opinião.

Assumindo, a Índia como a origem do jogo pode encontrar-se em diversos moradas electrónicas, o diagrama abaixo que sugere a difusão temporal e linguística do Shaturanga.


(crédito a http://hairulovchessmaniacs.blogspot.com/2007/09/malaysian-chess-history-part-1.html)

Será que se pode concordar com esta evolução temporal da difusão do xadrez?


Referências
a) http://www.thechesspiece.com/ChessHistorySamSloan.htm
b) Murray, H. J. R.,
A History of Chess, London: Oxford University Press, 1913.
c) http://www.mynetcologne.de/~nc-jostenge/
d) Santos, C.P.; Neto, J.P.; Silva, J.N.,
Índia – Shaturanga, Edimpresa, 2008

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A arte do meio jogo


Após a abertura entra-se na fase de maior riqueza de um jogo de xadrez - o meio jogo.
O meio jogo é sumptuoso e único. Não pode, ao invés da abertura, ser apoiado exclusivamente em jogos anteriores. É pois nesta fase que se revela a elegância e a energia própria, de cada jogador.

Sendo vasto o número de posições possíveis no tabuleiro, esta fase jamais poderá ser estudada como a abertura. O plano de jogo assume aqui a sua máxima relevância. Para traçar plano de jogo devemos adicionar aqui os seus dois coadjuvantes: a estratégia e a táctica.

A estratégia é um termo originário do campo militar, aplicado ao xadrez pode ser entendido como a definição clara de objectivos e o estabelecimento de linhas de acção para que os mesmos sejam atingidos. Na crónica "Plano ou ruína" já se indicaram alguns factores que devem ser explorados dentro de uma boa estratégia, os ditos elementos estruturais.

Entendendo o plano como uma árvore, terminada a abertura temos construído o tronco e a estratégia vai dar azo ao crescimento dos ramos principais. A árvore está naturalmente despida, como no Outono. O germe para o surgimento da Primavera é, aqui, a táctica.

O cerco de uma peça, a interrupção da via das peças, a abertura do caminho das peças, a atracção, a prisão, o desvio, a ameaça e o ataque duplo são, de entre outros, alguns elementos da táctica xadrezista.

Esta fase do jogo, mais que qualquer outra, sempre me fez lembrar os Templários. Quiçá, influência de Amin Maalouf através da obra, que recomendo, "Les Crisades vues par les Arabes". Ou mesmo, por a cidade dos Templários ser um usual entremeio das minhas viagens na adolescência, e na qual sempre fui forçado a ocupar um par de horas entre transportes. Num destes entremeios, há 25 anos, depois de um passeio junto ao Nabão dei de caras com "Fundamentos do Xadrez - o meio jogo", de Ludek Pachman, escarrapachado numa montra da rotunda Alves Redol.

Para exemplificar a riqueza e a arte consagrada no meio jogo usa-se aqui um jogo de Pachman vs Pilnik, acessível no sítio:

http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1104901



Na posição apresentada no diagrama acima as brancas aspiram à abertura de linhas para atacar directamente o rei negro. A última jogada sobre o tabuleiro, foi 15 ..., Teb8, o que mostra que as negras não temem a abertura da coluna h, e tentam lançar o seu próprio ataque pela ala de dama.

As brancas forçam então a abertura da coluna g, com sacrifício de 16 Cf5!, gxf5; 17 gxf5. As negras são forçadas a aceitar o sacrifício para não perderem o cavalo em f6. 17 ..., Be8; 18 Tdg1, Cg6. As negras planeiam voltar a fechar a coluna g, devolvendo a peça, para se concentrarem depois na ala de dama.

Mas, as brancas mantém a pressão sobre a coluna g jogando 19 f4!, b5; 20 hxg6, fxg6; 21 fxg6, hxg6; 22 f5!, bxc4. A todo o custo as negras pretendem expandir-se na ala de dama. Mas, as brancas mantém-se fieis ao seu plano inicial jogando, sem perda de tempo, o seu bispo em 23 Bf1!, Ta7; 24 fxg6, Tab8; 25 Bf6+, Bxf6; 26 Bh3, Bd7; 27 Df2!

A força do plano branco já suplantou completamente o plano das negras e além disso observa-se uma cooperação fortíssima entre as peças brancas que já não poderá ser demolida. É pois com muita elegância que o jogo terminou com vitória das brancas depois de 27.., Tf8; 28 g7, Bg5+; 29 Txg5, Txf2; 30 Be6+

O plano das brancas assentou numa estratégia que passou pela abertura da coluna g. Os elementos de tácticos usados pelas brancas na prossecução do seu plano também são motivos de grande riqueza, passando pelo sacrifício de peças, permitiu ganhar espaço e tempo para alavancar o seu ataque esmagador, pese embora a forte ameaça que as negras exerciam na ala de dama.

O meio jogo é sempre um assunto em aberto, a que se voltará.